terça-feira, 12 de julho de 2016

O Universo de Monstros de Universal Studios

O Universo de Monstros de Universal Studios
 
 

Hoje de manhã eu li um artigo sobre os planos de Universal Studios para criar um universo compartilhado de monstros clássicos e por que a ideia é destinada ao fracasso. Bom, antes de comentar sobre o artigo em si, vamos ver o histórico dessa ideia.

Em 1931, quando o cinema "talkie" ainda estava bem novo, o Universal lançou adaptações de Drácula e de Frankenstein, ambos os filmes fazendo bastante sucesso nas bilheterias. Isso resultou em sequências para ambos os filmes, inclusive A Noiva do Frankenstein, que é considerado um dos melhores de filmes de terror de todos os tempos. Universal Studios começou a produzir inúmeros filmes de terror, inclusive O Corvo, O Gato Preto, A Múmia, e  O Lobisomem.

A partir de 1943, o Universal produziu o primeiro filme  de "crossover": Frankenstein Encontra o Lobisomem. Este filme foi seguido por Mansão de Drácula e Mansão de Frankenstein, em que Drácula, Frankenstein e o Lobisomem apareceram juntos. Apareceram juntos mais uma vez na próxima década para um filme de Abbot e Costello. Mas naquele momento, os gostos do público haviam mudado e monstros atômicos, alienígenas e dinossauros estavam mais populares. Universal Studios tentou seguir o fluxo e ainda produziu uns filmes clássicos (O Monstro da Lagoa Negra; Tarantula) e filmes não-tão-bons (O Monstro do Ártico).

No final da década de 50, o estúdio Hammer da Inglaterra ressuscitou os monstros clássicos do Universal em filmes que continham a violência e sensualidade que faltava nos filmes antigos. Isso provou a ser lucrativo para Hammer até o começo da década de 70, quando o sucesso do Exorcista mudou completamente o que o público esperava de filmes de terror.

Agora vamos pular para a década atual. Disney e Marvel estão ganhando bilhões e bilhões de dólares com o universo Marvel de super-heróis. Fox Studios já produziram oito filmes no universo X-Men desde 2000 (e o filme Deadpool de 2016 foi um sucesso inesperado, apesar da sua classificação de "R"--ou 16 anos no Brasil). Warner Brothers, ligado com DC Comics, já produziram dois filmes bem-sucedidos de Super-Homem e estão planejando criar o seu próprio universo de super-heróis cinemáticos (este ano estreia Suicide Squad e Mulher Maravilha ganhará um filme no ano que vem).

Então, onde se insere Universal Studios em tudo isso?

Uns anos atrás, Universal anunciou o seu universo cinemático: o dos monstros clássicos. A ideia era para os monstros famosos do Universal (Drácula, Frankenstein, a Noiva do Frankenstein, o Lobisomem, a Múmia e o Monstro da Lagoa Negra) ter novos filmes e depois um (ou mais) crossovers. A ideia é sólida, mas tem um grande "porém" nessa história.

O artigo que li falou que a ideia não dará certo simplesmente porque o povo quer ver super-heróis e não monstros. Ponto final. Como muitos artigos hoje em dia sobre o entretenimento, o argumento é simplificado demais e existe mais para ganhar "clicks" dos internautas, do que para realmente analisar a situação. Então, é melhor fazer essa análise monstro por monstro para entender melhor a situação:

Drácula - O maior problema em fazer um reboot de Drácula como parte de um novo universo é que o Drácula jamais saiu dos holofotes. Nas últimas duas décadas o Drácula já aparecer em Dracula 2000 (e suas duas sequências); Dracula 3000 (um filme de terror/ficção científica que ninguém gostou); os desenhos de Hotel Transilvânia; Van Helsing em 2004, e isso não inclui todos os outros filmes e seriados sobre vampiros feitos em anos recentes (Vampire Diaries; True Blood; A Saga Crepúsculo; Blade Trinity; etc.). Então para fazer um filme de Drácula bem sucedido, seria necessário fazer algo diferente e inovador que não depende do nome "Drácula" para vender ingressos. Infelizmente, a ideia do Universal foi para criar uma nova origem que transforma o vampiro famoso num anti-herói em vez de um monstro como o autor Bram Stoker havia imaginado. O resultado, Dracula Untold (Drácula, a História Nunca Contada) teve uma recepção decente na bilheteria, ganhando 210 milhões mundialmente contra um orçamento de 70 milhões.

Frankenstein - Como o Drácula, um dos problemas do Frankenstein é que o personagem (e o livro da Mary W. Shelley) já é do domínio público. Portanto, qualquer estúdio pode fazer um filme sobre ele--Universal Studios tem direitos autorais sobre a aparência do monstro do Frankenstein, mas só isso. Em anos recentes, já tivemos dois filmes sobre ele: Frankenstein: Entre Anjos e Demônios (2014) e Victor Frankenstein (2015).  Quase ninguém gostou do primeiro, e Victor Frankenstein (produzido por 20th Century Fox) foi um fracasso na bilheteria. Não sei se um novo filme do Frankenstein poderia incitar o entusiasmo do público ou evitar que as pessoas associem erroneamente o novo filme com esses outros.

Lobisomem - Criaturas mitológicas não estão sujeitas a direitos autorais, mas o nome inglês "The Wolf Man" parece pertencer ao Universal Studios. O original Wolf Man foi produzido em 1941, mas há dezenas e dezenas de lobisomens que apareceram em filmes desde então. Ainda mais, o Universal Studios já produziu uma refilmagem oficial do clássico de 1941 em 2010: O Lobisomem com Benicio del Toro e Anthony Hopkins. Não seria mais fácil (e menos confuso) pedir para os roteiristas fazer um “retcon” (continuidade retroativa) da versão de 2010 para enquadrar no novo universo, em vez de fazer mais um maldito reboot? E o que o novo filme poderia fazer para convencer o público de que precisam assistir mais um filme de Lobisomem?

A Noiva do Frankenstein - Apesar do filme original ser considerado um dos melhores filmes do gênero de todos os tempos, ele foi refilmado apenas uma vez, em 1985 como The Bride (A Prometida). Então este personagem não necessariamente iria se beneficiar com um reboot, mas pelo menos não sofre com a familiaridade que os personagens acima sofrem.

A Múmia - A primeira Múmia estreou em 1932 e, como os outros filmes de terror do Universal Studios, é considerado um clássico. Depois, de 1940 a 1945, Universal Studios produziu mais quatro filmes não relacionados à versão de 1932, mas que formaram a sua própria continuidade. Em 1999, Universal Studios produziu uma refilmagem com Brendan Fraser que transformou o filme num blockbuster de ação no estilo de Indiana Jones. O filme foi seguido por duas sequências (o último foi feito em 2008). Em 2016, um novo reboot estrelando Tom Cruise está agendado para estrear nos cinemas. Posso entender que depois de três filmes e um "spin-off" (O Rei Escorpião—e suas sequências), um reboot seria necessário para enquadrar o monstro num novo universo. E a múmia tem a vantagem de não aparecer em muitos filmes. De fato, os filmes do Brendan Fraser são os únicos que foram para o cinema desde o começo da década de 90. Os outros são filmes de baixo orçamento que foram direto para a locadora ou TV a cabo e foram prontamente esquecidos. O único problema é que a múmia é limitada em termos de histórias que podem ser contadas (grupo de pessoas entra na tumba, ficam sujeitos a uma maldição, e são caçados por uma múmia vingativa), então espero que o roteiro do novo filme seja um pouco mais inovador. Até agora só sabemos que a múmia maligna será uma mulher.

O Monstro da Lagoa Negra – O monstro (conhecido como o Homem Peixe) fez a sua estreia em 1954 e apareceu em mais dois filmes, produzidos em 1955 e 1956, respectivamente. Outros estúdios criaram seus próprios homens peixe durante as décadas de 50 e 60, mas o monstro quase sumiu da mapa até o final da década de 70. O Homem Peixe apareceu no clássico Deu Uma Louca nos Monstros em 1986, mas só isso. O Universal Studios planejou várias vezes desde a década de 90 para fazer uma refilmagem de O Monstro da Lagoa Negra, mas nada se concretizou. Recentemente foi confirmado que o reboot iria acontecer e que a atriz principal seria a Scarlett Johansson. Agora, como um monstro que habita na Amazônia vai encontrar com os monstros baseados na Europa seria uma pergunta bastante interessante para os roteiristas responderem.

Não creio que o Universo Universal (que bizarro) está destinado ao fracasso simplesmente porque o público quer heróis e não monstros. Afinal, é possível que as pessoas nos próximos anos já comecem a sofrer fadiga de heróis e desejam algo novo. Mas acho que a melhor abordagem seria para produzir filmes com os monstros menos conhecidos primeiro e fazer esses filmes numa escala mais modesta com ênfase em sustos e não frisar as cenas épicas de ação. Isso provavelmente não irá acontecer, mas uma pessoa poderia esperar, né? No entanto, desejo o melhor para Universal Studios e espero que consigam criar novos filmes de monstros que respeitam os clássicos enquanto contam novas histórias criativas.

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